A pavimentação da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou a ser o centro de um acalorado debate no Senado Federal, culminando em um embate direto entre o senador Omar Aziz (PSD-AM) e a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. A discussão, que ocorreu em uma comissão do Senado, evidenciou as profundas divergências entre o desenvolvimento da região e as preocupações ambientais.
O senador Omar Aziz, um dos mais ferrenhos defensores da pavimentação total da BR-319, utilizou um tom enfático para criticar o que considera um excesso de burocracia e entraves ambientais que impedem a conclusão da obra. Em seu pronunciamento, Aziz questionou a atuação do Ministério do Meio Ambiente e de órgãos como o Ibama, acusando-os de “atrapalhar o desenvolvimento do país”.
“A senhora está dando dado falso”, disparou o senador em direção à ministra, ao rebater dados apresentados por Marina Silva sobre os impactos da rodovia. Ele ironizou a preocupação ambiental, comparando a situação da BR-319 com grandes obras e aterros em outras regiões do Brasil. “Se Brasília tivesse hoje que ser construída, o Juscelino levaria 100 anos para construir. Porque se um calango tivesse aí, o Ibama não ia permitir. O Lago Paranoá não existiria. Lá na terra do senador Amim, Camboriú não existiria porque foi aterro. Ipanema não existiria. Copacabana não existiria”, afirmou Aziz, enfatizando que os amazonenses “querem o direito de passear na BR-319”.
A ministra Marina Silva, por sua vez, defendeu a necessidade de rigor no licenciamento ambiental e de uma “avaliação ambiental estratégica” para a rodovia. Ela ressaltou que o debate sobre a BR-319 tem sido utilizado como um “bode expiatório” para esconder a falta de resolutividade de governos anteriores. “Esse bode expiatório chama-se Marina Silva, porque é concretíssimo que eu saí do governo em 2008. De 2008 para 2023, são quantos anos? Ou não é verdade que, de 2008 a 2023, tem 15 anos? Por que o governo Bolsonaro não o fez?”, questionou a ministra, rebatendo as acusações de que ela seria a única responsável pelo atraso.
A tensão aumentou quando a ministra, após ser diversas vezes interrompida e confrontada, afirmou: “O senhor gostaria que eu fosse uma mulher submissa, mas eu não sou”. A fala gerou um momento de forte troca de acusações, culminando com a retirada da ministra da sessão, alegando desrespeito.
O senador Aziz, que chegou a mencionar a tragédia da falta de oxigênio em Manaus durante a pandemia da Covid-19 como um dos motivos para a urgência da pavimentação da BR-319, defendeu a obra como essencial para a dignidade e o escoamento da produção da região.
O episódio no Senado reflete a complexa balança entre as necessidades de infraestrutura da Amazônia e a imperiosa demanda por preservação ambiental. Enquanto parlamentares do Norte defendem a BR-319 como um vetor de desenvolvimento e integração, o Ministério do Meio Ambiente e ambientalistas alertam para os riscos de desmatamento, grilagem e garimpo ilegal que a pavimentação descontrolada da rodovia poderia acarretar.
A discussão sobre a BR-319 promete continuar no Congresso Nacional, com o governo federal buscando um equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a responsabilidade ambiental na região amazônica.