Mundo – A Bolívia deu um passo decisivo rumo à mudança política neste domingo (19), ao eleger o senador Rodrigo Paz, de 55 anos, do Partido Democrata Cristão (PDC), encerrando quase duas décadas de hegemonia da esquerda liderada pelo Movimento ao Socialismo (MAS), fundado por Evo Morales.
O resultado representa uma virada histórica no cenário político boliviano. Paz venceu as eleições presidenciais no primeiro turno, com cerca de 30% dos votos, desempenho considerado surpreendente para um candidato que iniciou 2025 com apenas 3% das intenções de voto. O candidato do MAS, enfraquecido por disputas internas e escândalos, sequer conseguiu chegar ao segundo turno.
“Precisamos fazer uma transformação para que a economia seja nossa, e não do Estado”, declarou Rodrigo Paz após a vitória, sinalizando uma guinada liberal na condução econômica do país.
Colapso do “milagre econômico”
A derrota do MAS é atribuída a uma série de fatores: crise interna, escândalos de corrupção, má gestão econômica e o esgotamento do modelo estatizante adotado por Evo Morales. O chamado “milagre econômico” dos anos 2000, impulsionado pelas exportações de gás natural, entrou em colapso.
As exportações do setor despencaram de US$ 6 bilhões em 2014 para US$ 2 bilhões em 2022. Já as reservas internacionais, que chegaram a superar os US$ 10 bilhões, caíram para apenas US$ 50 milhões em 2025, segundo analistas. A inflação chegou a 24% ao mês, e o déficit público atingiu 95% do PIB — níveis alarmantes para qualquer economia.
Nas ruas, o cenário é crítico: filas por pão, gasolina e dólares tornaram-se parte do cotidiano da população, alimentando a insatisfação generalizada contra o MAS.
A queda de Evo Morales
Primeiro presidente indígena da Bolívia e figura icônica da esquerda sul-americana, Evo Morales viu sua influência política desmoronar. Envolvido em denúncias de corrupção e sob uma ordem de prisão por estupro de uma adolescente em 2016, Morales perdeu o controle do MAS, que se fragmentou em facções rivais.
Mesmo afastado do poder, tentou influenciar o partido nos bastidores, mas sua liderança já não era mais capaz de sustentar o apoio popular nem manter a coesão interna.
Desafios do novo governo
Rodrigo Paz assume um país em colapso econômico e social. Seu governo promete reduzir a presença do Estado na economia, atrair investimentos privados, controlar a inflação e reconstruir a credibilidade internacional da Bolívia.
No entanto, o caminho será desafiador. O novo presidente enfrentará forte resistência de setores ainda ligados ao MAS, especialmente nas regiões rurais e entre movimentos indígenas. Além disso, a gravidade da crise fiscal e energética exigirá medidas drásticas e impopulares.
Com essa eleição, a Bolívia se junta a países como Argentina e Paraguai em uma tendência regional de guinada à direita, marcando o declínio dos modelos populistas de esquerda que dominaram a América do Sul nas últimas décadas.