BrasilPolítica

Lula e Flávio Bolsonaro travam guerra pelos maiores colégios eleitorais

Mesmo distante, a eleição presidencial já mobiliza articulações nos estados. Lula e Flávio Bolsonaro buscam aliados fortes em estados decisivos como São Paulo, Minas e Rio. Enquanto algumas chapas ganham forma, negociações e disputas internas ainda marcam o cenário

Apesar da distância do processo eleitoral, os dois principais candidatos à Presidência da República já se movimentam para rascunhar palanques estaduais. O foco, no momento, está nos três maiores colégios: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Juntos, representam 63,8 milhões de eleitores, ou 41% do total, segundo dados de 2024 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentam emplacar aliados fortes na região — especialmente em Minas, que tradicionalmente representa um espelho do cenário nacional. Embora a consolidação dos candidatos aos governos estaduais e ao Senado ainda esteja distante, já é possível ver os desenhos iniciais.

Em São Paulo, a candidatura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já é dada como certa. A expectativa é que a decisão seja oficializada na quinta-feira em evento na capital paulista, ao lado de Lula. Apesar de ter resistido inicialmente, Haddad foi convencido pelo presidente a concorrer, sob o argumento de que é o único nome competitivo contra o  governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Também participará da chapa a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, que oficializou a decisão na quinta passada, durante um evento em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, seu atual domicílio eleitoral.

“Para minha grata surpresa, fui ver, inclusive, que São Paulo tinha me dado mais de um terço dos votos para presidente da República (no primeiro turno de 2022). Foi onde eu tive mais votos, onde eu tenho mais acentuação”, declarou. Ela não confirmou se trocará de partido, já que o MDB, em São Paulo, apoia Tarcísio. A outra vaga ao Senado deve ser ocupada pela também ministra Marina Silva, do Meio Ambiente. Flávio, por sua vez, já firmou apoio a Tarcísio e vai lançar o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), ex-secretário de Segurança à Casa Alta. A segunda vaga ainda está em negociação.

Consolidação

No Rio de Janeiro, Flávio já firmou apoio ao secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL). A chapa é uma das poucas já consolidadas oficialmente, em um evento em 24 de fevereiro. A vice será ocupada pelo ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP), e serão lançados ao Senado o  governador Cláudio Castro (PL) e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União). No evento, Flávio teceu elogios a Ruas. “Uma grande liderança, jovem, policial civil. É uma pessoa respeitada na política, e que tem o apoio de todos os partidos que estão se integrando a esse projeto”, disse o senador.

Lula, por sua vez, está com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD). Durante visita à cidade em 6 de março, porém, sinalizou que é preciso avançar nas negociações. “Construir uma chapa forte, capaz de vencer não apenas a disputa pelo governo, mas também de conquistar cadeiras no Senado”, enfatizou. Ele apoia a candidatura da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), mas a segunda vaga ainda está indefinida. Vencer no Rio é estratégico para a campanha do petista justamente por ser o reduto eleitoral da família Bolsonaro.

Em Minas, por outro lado, o cenário está embolado. Lula trabalha para convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) a disputar o Palácio da Liberdade. Aliados comentam que Pacheco já diminuiu as resistências iniciais, mas que depende de encontrar um novo partido, como o União Brasil e cobra poder de escolha sobre o restante da chapa. A prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), é fortemente cotada para concorrer ao Senado e lidera com 20% das intenções de voto à Casa Alta, segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada na sexta-feira.

Já Flávio enfrenta um imbróglio. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) se anunciou como pré-candidato e tenta viabilizar o apoio de Bolsonaro. Porém, esbarra no grupo do atual vice-governador, Mateus Simões (PSD), apoiado pelo governador Romeu Zema (Novo) e pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O nome do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe (PL), também é ventilado como alternativa. Flávio se reuniu com Nikolas em Brasília no fim de fevereiro e o colocou como principal articulador das candidaturas mineiras. Por outro lado, o deputado federal Domingos Sávio (PL-MG) já tem o apoio nacional da sigla para concorrer ao Senado.

Negociação intensa

Fora dos grandes colégios eleitorais, a maioria dos cenários está indefinido. Não é o caso da Bahia, onde Lula disputa com a chapa pura à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT), e o ministro da Casa Civil Rui Costa (PT) e o senador Jaques Wagner (PT-BA) ao Senado. Flávio, por sua vez, apoia ACM Neto (União), ao governo, e João Roma (PL) ao Senado, com a segunda vaga ainda indefinida.

Especialistas ouvidos pelo Correio apontam que já existe uma movimentação intensa em torno das chapas, apesar da distância das eleições. Especialmente por parte de Flávio, que comanda a oposição a Lula. Eles também apontam que todos os olhos estão voltados para Minas Gerais, que tem uma influência enorme sobre o resultado nacional. “A direita tem muito mais nomes. precisa testar, ver quem tem mais potencial de trazer retornos eleitorais”, disse a professora de ciência política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Luciana Santana. “Em relação ao governo, ele (Lula) fica refém da oposição, no sentido que ele precisa entender quem efetivamente vai enfrentar para montar suas alianças”, acrescentou.

Santana destaca também a importância de São Paulo, que vem recebendo a atenção principal de Lula nas últimas semanas, com a movimentação para confirmar a candidatura de Haddad. “É a principal economia do país. Não à toa está tendo esse investimento. Mesmo sabendo da chance de derrota (por parte de Lula), é extremamente desejável ter um bom candidato. Por isso, estamos vendo esse cenário de muitas movimentações”, enfatizou. Sobre o cenário mineiro, a analista aponta que é o “mais cobiçado”, reproduzindo a lógica nacional. Na política, vale a máxima de que quem ganha em Minas, ganha no Brasil.

O professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Lopes frisa que Minas está embolado dos dois lados. Sem candidato competitivo da esquerda, Lula precisa de um político de centro, e Pacheco desponta como a única opção. “Encontrar alguém com perfil de centro que possa se associar ao PT também não é algo tão simples de ser feito.  Por isso que o Rodrigo Pacheco é um nome ideal, porque ele vem na sua trajetória política, da direita, e nesse momento estaria disposto a compor com o PT para chegar ao Palácio da Liberdade. Não há tantos nomes com esse tipo de perfil, e que sejam palatáveis”, disse.

Fonte: Correio Braziliense

Foto: Ed Alves

Leia também